terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Se o Natal Não Fosse Um Dia

Tudo seria bem melhor se o Natal não tivesse sido transformado nessa exploração social e econômica que nos faz esquecer a realidade do menino Jesus que nasceu pobre "envolto em panos e deitado numa manjedoura" (Lc 2,20), e nos curvarmos à ganância do lucro, lógica de um sistema que nos afasta cada vez mais do Deus que se fez homem e veio justamente para destruir o egoísmo, a hipocrisia e a injustiça.

Se o Natal não fosse um dia, não precisaríamos revelar, no fim do ano, o amigo oculto, pois os amigos seriam visíveis, verdadeiros e transparentes. Estariam a nossa espera a qualquer momento, e em vez de trocar presentes, trocaríamos bens que não podem ser vendidos, nem comprados, como o companheirismo e a fraternidade. Seriam dispensáveis os cartões de Natal se vivêssemos no dia-a-dia, as mensagens que neles propagamos. Nossas atitudes seriam os melhores votos e felicitações. 

Se o Natal não fosse um dia, os corais entoariam cânticos para acalentar o Cristo Salvador que nasceria todos os dias nos corações humanos. Não haveria necessidade de pisca-piscas e enfeites, se deixássemos que a luz de Deus entrasse o ano todo em nossas casas, nosso trabalho, nosso viver. Tería­mos um brilho diferente se estivéssemos sempre aber­tos para que a sabedoria divina governasse nossas vidas, nossa cidade, nosso país. 
   
Se o Natal não fosse um dia, não existiriam as ceias em que alguns bebem, comem e vomitam para comer mais enquanto milhões morrem ao ano por não ter nada para comer. Não haveria campanhas do Natal para os pobres. Esmolas seriam desnecessárias. Nem os ricos precisariam sair pela perife­ria doando as sobras de suas fartas ceias. Todos se sentariam à mesma mesa, partilhando o "Pão Nosso de cada dia", os bens da terra, os frutos do trabalho. 
   
Se o Natal não fosse um dia, nos envergonharíamos ao contemplar no presépio, Jesus na manjedoura, enquanto durante o ano todo viramos o rosto para tantos que nascem e vivem na pobreza. Não encontraríamos tantos Josés e tantas Marias expulsos de sua terra, sem um chão para plantar ou colher, enquanto alguns senhores não sabem o que fazer com tanta terra concentrada nas mãos.
    
Se o Natal não fosse um dia, não assistiríamos passivamente o extermínio de tantas crianças, jovens e adolescentes, vítimas das drogas. Não se mataria para roubar ou para sobreviver, se vivêssemos o Natal todos os dias do ano, se nos considerássemos irmãos.
   
Se o Natal não fosse um dia, meu irmão, Geraldo Augusto, você e tantos outros que foram assassinados pela perversidade desse sistema, certamente estari­am aqui, vivendo mais um dia em que o presente seria o abraço fraterno e igualdade. 
    
Se o Natal não fosse dia, não nos limitaríamos a lavar nossas mãos e dizer, como Pilatos, que nada temos a ver com tudo isso.      


Natal não é um dia, é um renascer constante que acontece em gestos e atitudes e nos faz lembrar, como o poeta, que fomos feitos "para a esperança no mila­gre, para a participação na poesia, para ver a face da morte. De repente, nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem, da morte, apenas nascemos imensa­mente".
    
Jesus nasceu, morreu e ressuscitou. E você vai continuar aí parado? Corra, dê um abraço, perdoe e deseje Feliz Natal, mas viva essa realidade durante todos os dias do Ano.

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